quarta-feira, 27 de julho de 2011

Autonomia e dependência

As pessoas inseguras das suas capacidades e competências, no exercício de funções cuidadoras ou de simbologia parental, tendem, de modo a sentirem-se valorizadas e apoiadas, a promover um controle e dependência extremos nos outros.

Não se consegue promover a autonomia e desenvolvimento identitário de alguém, se o agente facilitador desse processo não for, ele próprio, suficientemente autónomo e revelador de uma identidade bem definida, assentes numa valorização de si e confiança adequadas às suas efectivas competências de responsabilidade, que foram experienciadas, desenvolvidas e validadas pela prática relacional.

Quem não possui ainda tais características, e precisa, forçosamente, de assumir funções de responsabilidade face aos outros, deve reconhecer e assumir o ponto de desenvolvimento em que está, procurando evoluir em termos identitários e relacionais, através de uma relação especializada para fins de desenvolvimento pessoal/psicoterapêutico, e procurando, simultaneamente, no seu quotidiano, o apoio de alguém habilitado para o desempenho de tais funções.


domingo, 24 de julho de 2011

A excessiva auto-centração

Infelizmente, a humanidade é ainda caracterizada, em grande medida, por sentimentos e atitudes gerais de excessivo narcisismo.

Tal deriva de um pensamento colectivo - para o qual uma massa crítica de pessoas contribui ou, pelo menos, aceita - que ainda valoriza a máxima da selecção natural aplicada às relações humanas: «vencer» os outros, para poder sobreviver e atingir a felicidade. Todavia, a lei da selva não deve ser aplicada a indivíduos com inteligência, supostamente, superior, porque o «sucesso» de poucos, não pode basear-se, naturalmente, em genuínos sentimentos de bem-estar, porque implica um esforço contínuo de negação do mal-estar geral dos que os rodeiam e o efeito emocional, essencialmente de culpa, que tal constatação da realidade induz. Para além disso, existe sempre um sentimento de insegurança inerente a um estado de aparente superioridade. De facto, se poucos têm o que muitos desejam, alguns, certamente, tentarão conquistar esses «tesouros» minoritários. A tensão e o conflito excessivos nascem de relações humanas em que uns são demasiado privilegiados e outros são, essencialmente, desgraçados.

O narcisismo geral vigente nas sociedades ditas «modernas» (esta modernidade é, essencialmente, uma primitiva forma selvagem de viver, relacionalmente, sob a lei da selecção natural), apresenta-se, realmente, como uma forma de expressão humana errada e perniciosa para todos, uma vez que, desse modo, a vivência geral é inevitavelmente infeliz, e aqueles poucos que se julgam, ilusoriamente, felizes terão que suportar viver num mundo que lhes transmite, sobretudo, infelicidade e incompreensão. Caso se persista neste status quo, para diminuir os desagradáveis efeitos secundários, a minoria reinante precisará, certamente, isolar-se cada vez mais, ao estilo dos gauleses nas histórias de Astérix e Obélix, e consumir quotidianamente uma espécie de poção mágica, que não induz uma real força e poder, mas tão somente uma negação, ou seja, uma selecção, artificial e distorcida, do que sentem do mundo, fechando-se cada vez mais sobre si próprios até que esse investimento contínuo de auto-centração, levado ao extremo, provoque, inelutavelmente, uma implosão psíquica num restrito e impermeável espaço identitário.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

As relações perduram, mas estão sujeitas à transformação

O ser humano apresenta a particularidade de sofrer com processos de luto: mudanças consistentes a nível relacional, que podem ser sentidas de forma mais ou menos intensa e definitiva, consoante o tipo de luto de que se trata.

É importante ter consciência que o luto não é um processo de esquecimento, ao nível de um fenómeno de amnésia parcial ou total de uma relação vivida. Antes pelo contrário: um processo de luto bem sucedido requer a consciência clara do que foi vivido e da forma como essa relação se transformou, e continua a transformar-se. De facto, a sensação de perda, muitas vezes difícil e especialmente dolorosa, associada a um processo de luto, não deve ser experienciada, ilusoriamente, como uma destruição ou impossibilidade de vir a aceder a determinados conteúdos mentais e emocionais, mas sim vivida mediante a compreensão de um processo transformacional em curso dessa relação específica.

Importa salientar que, mesmo nos casos mais intensos de processo de luto, quer seja por uma ruptura relacional significativa, associada a uma escolha de um ou ambos os intervenientes dessa relação, ou mesmo por motivo de falecimento de alguém especialmente relevante para a pessoa enlutada, a relação, em si, nunca é eliminada, mas sim sujeita a uma transformação que a nova dinâmica interactiva solicita: de forma essencial e profunda, implica uma modificação da forma como o Eu se expressa, interiormente, face às memórias relacionais inerentes ao luto. Os resultados contínuos deste processo interno manifestam-se na forma como vai sendo modificada essa particular relação ao nivel externo, no domínio da realidade interpessoal e/ou face a símbolos que evoquem tal relação significativa.